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Um espaço de reflexão com vista para o mar...

29.6.04

À primeira vista 

Quando me chamou, eu vim
Quando dei por mim, estava aqui
Quando lhe achei, me perdi
Quando vi você, me apaixonei

Chico César

5.5.04

Claridade 

(...) antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto, in «A criança em ruínas»

8.4.04

Cidade a preto e branco 

Lá em baixo, o rio corre lentamente para o mar.
A cidade respira e os teus olhos transpiram uma sede que todos os rios que conheço não conseguiriam saciar.
A luz reflecte o teu olhar por esta tarde sem fim, quando confrontámos a nossa solidão e deixámos correr a história que não sabemos como vai acabar.
Tu apareceste do nada.
Sem ti, a cidade nunca mais será a mesma.
O preto e o branco são agora as únicas cores que vejo no meu horizonte...

12.3.04

Na tua ausência... 

O que dói
é não poder apagar a tua ausência
e repetir dia após dia os mesmos gestos.

O que dói
é o teu nome que ficou como mendigo
descoberto em cada esquina dos meus versos.

O que dói
É tudo e mais aquilo que desteço
ao tecer para ti novos regressos

Ítaca, de Daniel Faria

11.3.04

Não te preocupes com nada 

Percorri-te com o olhar. Naquela manhã, como em todas as outras, a praça estava cheia de gente, um verdadeiro corrupio de vultos que percorria as barraquinhas que vendem de tudo um pouco e enchia as esplanadas dos cafés.

Mal surgiste, por detrás daquele prédio velho onde dantes funcionava a pharmácia da dona Maria, fitei-te com atenção. Não me viste. O senhor que empurrava os carrinho de mão com os moinhos de vento para as crianças ia-te atropelando. Sorriste. Coraste e pediste desculpa, como se a culpa fosse tua? Não tens culpa do teu andar franzino, desajeitado, de quem não vê por onde vai, mas sabe para onde quer ir. O mesmo andar pelo qual me apaixonei, aquele para que olho, dia após dia, enamorado.

Vieste sentar-te a meu lado. As tuas mãos suavam. Todos os dias passavas na praça à mesma hora e sentias as pessoas a olhar para ti. Eu sabia que isso te incomodava. Porquê? Por que é que todos olhavam para aquela menina de corpo frágil e de vestido até aos pés?

Naquela manhã tudo mudou. Sentaste–te ao meu lado. Fizeste-o porque sabias que eu também te olhava, tal como todos os outros. Não trazias as flores no regaço, como habitualmente e, em vez de atravessares a praça e desapareceres por detrás da igreja, como fazias todos os dias, sentaste-te e ficaste a olhar os outros.

Não foram mais de quinze minutos. Desapareceste sem me olhar nos olhos, sem esboçar um sorriso, sem deixar cair uma lágrima.

No dia seguinte procurei-te na praça. Não te vi. Esperei mais tempo do que o costume mas em vão.
Perguntei por ti e disseram-me que tinhas partido. Ouvi alguém dizer que a tua mãe, há muito internada no hospital, tinha morrido.

Percebi então porque no dia anterior não trazias as flores e vieste para o meu lado, a olhar os outros, em silêncio, em jeito de vingança daqueles que durante muitos meses te olharam sem te dirigir uma palavra.

Só gostava de ter podido enviar-te um sorriso para te reconfortar no teu caminho. Não te preocupes com nada. Vai correr tudo bem.

10.3.04

Bom Dia  

Hoje eu tenho asas nos pés
Só me apetece dançar
Há tantas caras bonitas
Tantas mãos a acenar
Eu sou um balão colorido e mágico
- Bom dia!

Ontem já passou
Amanhã pode ser bom
Mas hoje é o melhor dia que há
Nem preciso de fé
Eu felizmente não preciso de nada
- Bom dia!

Hoje eu sou um homem contente
Ao serviço do amor
Sou o próprio sonho
E desconheço a dor
Eu sou o vagabundo mais feliz que existe
- Bom dia!

Hoje eu sou mais forte dos deuses
Mais certeiro que a morte
Estou por cima da queda
Mais seguro que a sorte
Eu sou o universo inteiro a sorrir
- Bom dia!

Jorge Palma

8.3.04

O regresso 

E de repente o tempo não passa.
O que já foi deixou de o ser e o que é ainda está para vir.
Neste local, como em poucos outros, o cheiro tem outro sabor, os olhares parecem retratos tirados a preto e branco e o amor caminha a passos largos para a solidão.
O vento leva todos os sorrisos que deixámos na areia e o mar faz o favor de os guardar para sempre, envolvendo-os numa maré que caminha para longe.
Aqui, sem mim, sem ti e sem nós, ninguém me sabe explicar o que me faz regressar.
Anseio pela tua voz.

3.3.04

A Propósito de Ti 

Somos felizes. Acabámos de pagar a casa em Outubro, fechámos a marquise, substituímos a alcatifa por tacos, nenhum de nós foi despedido, as prestações do Opel estão no fim. Somos felizes: preferimos a mesma novela, nunca discutimos por causa do comando, quando compras a «TV Guia» sublinhas a encarnado os programas que me interessam, lembras-te sempre da hora daquela série policial que eu gosto tanto, com o preto cheio de anéis a dar cabo dos Italianos da Mafia.

Somos felizes: aos domingos vamos ao Feijó visitar a tua mãe, ficas a conversar com ela na cozinha e eu passeio com o Indiano, filho de uma senhora que mora lá no pátio; assistimos ao básquete dos sobrinhos dele no pavilhão polivalente, comemos uma salada de polvo no café durante os resumos do futebol, e voltamos para Almada à noite, com o jantar que a tua mãe nos deu numa marmita embrulhada no «Record», a tempo de assistir às perguntas sobre «factos e personalidades» do concurso em que a apresentadora se parece com a tua prima Beatriz, a que montou um pronto-a-vestir no centro comercial do Prior Velho.

Somos felizes. A prova de que somos felizes é que comprámos o cão no mês passado e foi por causa do cão que tirámos a alcatifa, que as unhas do animalzinho rasparam de tal forma que já se notava o cimento do construtor por baixo. Andamos a ensiná-lo a não estragar as cortinas, pusemos-lhe uma coleira contra as pulgas depois de uma semana inteira a coçarmo-nos sem entender porquê, passados dois dias o Fernando começou a coçar-se também e a acusar-me de cheirar a cachorro e levar pulgas para a repartição, o chefe avisou-me do fundo

- Veja-me lá isso, Antunes
de modo que pus também uma coleira contra as pulgas debaixo da camisa e o Dionísio, espantado
- Deste em cónego ou quê?
E eu, envergonhado, a abotoar o colarinho
- É uma coisa chinesa para o reumatismo, a Jóia Magnética Vitafor é uma porcaria ao pé disto
e como nas Finanças se respeitam o reumatismo e as coisas chinesas, nunca mais me maçaram.

Às segundas, quartas e sextas sou eu que vou lá abaixo levar o cão a fazer chichi contra a palmeira, às terças, quintas e sábados é a tua vez, e o que não vai lá abaixo fica à janela a olhar o bichinho a cheirar os pneus dos automóveis, com um ar sério de quem resolve problemas de palavras cruzadas que os cães têm sempre que farejam postes e Unos.

Somos felizes. Por isso não me preocupei no Sábado com o animal, muito entretido na praceta, e tu atrás dele, de trela enrolada na mão, sem olhares para cima nem dizeres adeus, a nadares devagarinho até desapareceres na travessa para a estação dos barcos. Foi anteontem. Às onze horas tirei o cozido do forno e comi sozinho. Ontem também. Hoje também. Não levaste roupa, nem pinturas, nem a fotografia do teu pai, nada.

Ainda há bocadinho acabei de gravar o episódio da novela para ti. A tua mãe telefonou, a saber porque é que não fomos ao Feijó, e eu disse-lhe que daqui a nada lhe ligavas. Porque tenho a certeza de que tu não te foste embora, visto sermos felizes. Tão felizes que um dia destes vou comprar um micro-ondas para, se chegares a casa, teres a comida quente à tua espera.

António Lobo Antunes

23.2.04

Fragmentos de uma carta 

Anseio o dia em que acordares
por cima de todos os teus números
raízes quadradas de somas subtraídas
sempre com a mesma solução...
Podias deixar de fazer da vida
um ciclo vicioso
harmonioso do teu gesto mimado
e à palma da tua mão.

É que hoje acordei e lembrei-me
que sou mago feiticeiro
e a minha bola de cristal é feita de papel
Nela te pinto nua
Numa chama minha e tua

Desculpa se te fiz fogo e noite
sem pedir autorização por escrito
ao sindicato dos Deuses...
mas não fui eu que te escolhi.
Desculpa se te usei
como refúgio dos meus sentidos
pedaço de silêncios perdidos
que voltei a encontrar em ti...

“Carta”, dos Toranja

22.2.04

Look what the cat brought in... 


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